Dar o Nobel para Dylan é como dar o Grammy para Carl Magnus Palm


Por Kamila Ferreira

No último dia 13 de outubro, o cantor e compositor Bob Dylan foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. A Academia Sueca, ao dar o prêmio ao norte-americano, afirma que ele venceu “por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”. Sua obra dispensa qualquer comentário, ele é fora de série no que faz, mas será mesmo que foi merecido?

Sabe-se que o Nobel de Literatura, ao longo de sua história, deixou de fora grandes nomes. Podemos citar como “injustiçados” Jorge Luis Borges, Virginia Woolf, Liev Tolstoi e Jorge Amado. Mas, o que Dylan fez para merecer que esses quatro citados (e tantos outros) não?

Sim, literatura é trabalhar com as palavras. Seja em verso ou prosa. Dylan escreveu um único romance (Tarântula, 1971) e um livro de crônicas, o que é muito pouco para alguém que recebeu um prêmio dessa magnitude. E é pouco também para quem se diz escritor.

De certa forma, ao premiar Dylan, vários outros autores acabam desestimulados, porque a motivação da premiação deixa de fazer sentido. Aliás, a própria afirmação da Academia não faz tanto sentido assim. O que é exatamente a “canção americana”? Se o conceito de “canção americana” é estranho para mim, que sou leiga, o que dirão os escritores que protestaram contra?

E antes que alguém diga que ganhar prêmios é consequência pela obra bem escrita (ou por qualquer trabalho bem feito), saiba que sim, no fundo gostamos de ter nosso ego massageado com qualquer reconhecimento acerca do que fazemos e, ao ver uma pessoa de fora da área ganhando o que outros deveriam ganhar, sim, é frustrante.

Portanto, a César o que é de César. Dar o Nobel para Bob Dylan é como dar o Grammy para Carl Magnus Palm, que nunca cantou nada na vida, entretanto é o biógrafo oficial do ABBA. Mas tudo bem, bola pra frente, ano que vem tem nova edição e, vai que eles acertam?

PS: espero nunca ver um youtuber ganhando Nobel. Ou melhor, espero que nenhum youtuber ganhe reconhecimentos literários, que fiquem só na internet mesmo, porque, se vê-los na lista dos mais vendidos já é triste, imagine então vê-los ganhando prêmios por terem reproduzido no papel o que já fazem nos seus vídeos?

**A opinião expressa neste artigo é única e exclusiva de sua autora, não representando a opinião da Nova Millennium.**

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