Stieg Larsson e sua contribuição à literatura policial


Nascido Karl Stig-Erland Larsson, o sueco da pequena cidade de Skelleftehamn ganhou o mundo, mas não pôde ver sua história cruzando todos os continentes. Stieg, além de jornalista, era ativista e, através de seus textos (muito antes de criar Millennium), ele se destacava por denunciar e combater o racismo, machismo, fascismo e o neonazismo, enfim, dar voz às minorias em geral. Larsson consolidou seu nome na renomada agência de notícias sueca TT, mas foi na revista Expo, fundada por ele, que, em muito tempo, a Suécia abria os olhos para a violência que cada vez mais crescia entre a população.

Ousou de vez quando escreveu os três primeiros livros da série Millennium (Os Homens que Não Amavam as Mulheres; A Menina que Brincava com Fogo; A Rainha do Castelo de Ar), onde mostrou do que as pessoas que detém o poder podem ser capazes para garantir que seus piores segredos continuem sendo guardados, refletindo também nos abusos sofridos por aqueles que não tem como se defender – ou tampouco são ouvidos.

Usando Mikael Blomkvist como seu (possível) alter ego, Larsson mostrou o que é ser um jornalista de verdade. A moral acima de tudo, a verdade e o público em primeiro lugar. Pode até não importar as consequências, mas a verdade deve ser noticiada e mostrada à população. O povo é o único que deve ser beneficiado. Não à toa, um em cada quatro suecos leu pelo menos um exemplar de sua trilogia. Ele, usando diversos artifícios de ficção, mostrou que, nem mesmo no melhor dos países, tudo está bem, sempre há algo de podre. A história de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander é ficcional, mas se você trocar uns nomes e datas, pode ter certeza de que se torna real – e até mesmo palpável para nós aqui do outro lado do mundo.

Por isso, costumo dizer que a literatura policial escandinava (os scandi-crimes) pode ser dividida em três períodos: primeiro, com o casal Sjöwall e Wahlöö, que moldou o gênero (e inspirou inclusive o próprio Stieg), depois com Henning Mankell, colocando um policial cheio de incertezas para conduzir diversas investigações, e por fim, Stieg Larsson, que trocou o detetive policial pelo jornalista e deu novos ares não só ao gênero, mas como um todo a arte de contar uma história.

Por ter seus inimigos, a morte de Larsson foi objeto até mesmo de uma investigação entre jornalistas – quem garante que a extrema-direita, que ele tanto denunciava, não teria feito algo para calá-lo? A questão é que, no dia 9 de novembro de 2004, a Literatura perdia um grande nome, que deixou uma trama incompleta, algumas dores de cabeça e, o mais importante na opinião desta que vos escreve, uma forte mensagem: nenhum jornalista que se preze deve se calar.

É verdade que David Lagercrantz está dando sequência à série, com o quinto livro vindo a caminho, mas ele nunca será como Stieg, o jovem que fez de tudo um pouco – desde servir às Forças Armadas a participar de marchas contra os direitos das minorias – e, mesmo postumamente, deixou seu nome na história da literatura, dentro e fora da Suécia. Eu e todos os fãs de romances policiais devemos muito a ele. E sim, esta publicação se chama Nova Millennium em homenagem a sua história. Se a equipe da NM tiver só 10% da capacidade que ele teve como jornalista, estaremos contentes.

Se estivesse vivo, hoje, 15 de agosto, Stieg Larsson estaria completando 63 anos.

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